Sob pressão, você sempre entrega o seu melhor?

Algumas pessoas resistem melhor às intempéries e dificuldades da vida, são produtivas, entregam além do esperado, alcançam grandes metas, realizam grandes conquistas e, diante das maiores pressões, revelam o seu melhor.

Recentemente, Neymar Jr., atacante da seleção brasileira, foi alvo de críticas por ter chorado ao final da partida entre Brasil x Costa Rica pela Copa do Mundo de Futebol na Rússia.

A vitória da seleção brasileira por 2 gols de diferença, já no fim do jogo, não convenceu à torcida e o desempenho do atacante no torneio já vinha sendo bastante contestado. Além disso, no jogo contra a Costa Rica, observamos um comportamento destemperado do atacante, que chegou a pedir ao juiz que não o encostasse, xingou o adversário, xingou o capitão do próprio time por ter utilizado de fair play e simulou inúmeras quedas, deixando de lado o que sabe fazer de melhor: jogar futebol.

Dias depois, o jogador desabafou em uma rede social lamentando que nem todos sabiam o que teria passado para chegar ao patamar atual, que havia muitas críticas de gente que fez pouco e que o seu choro era de “alegria, de superação, garra e vontade de vencer”.

O técnico Tite defendeu o atacante e disse que não havia problema com o “desabafo emocional” e que a “pressão” em cima do camisa 10 era “desumana”.

Em 2014, no jogo entre Brasil x Chile na Copa do Mundo no Brasil, o então capitão da seleção brasileira Thiago Silva também chorou e pediu ao técnico Felipão que não fosse escolhido pra cobrar os pênaltis, porque não se sentia “confiante”. Ainda bem que não cobrou o pênalti. Eu ouvi esta frase certo dia: “um vaso não se recusará a se estilhaçar, se você o deixar cair alto o suficiente”.

O estresse e o organismo

Muitas coisas exigem algum tipo de estresse ou irregularidade para funcionar bem, tal como nossos corpos. Hoje, sabemos que se o ambiente estiver muito desinfetado, nós podemos perder a resistência à infeções. Nós conhecemos a eficácia das vacinas, que introduzem ao organismo um pouco do que seria prejudicial para criar resistência às doenças.

O organismo de qualquer pessoa, quando submetido à situação de perigo, reage e prepara o indivíduo para reagir entre a luta ou a fuga. São inúmeras as modificações fisiológicas que ocorrem no corpo após este estímulo ao sistema nervoso autônomo. Entre elas, a liberação de adrenalina e de cortisol. Estes hormônios preparam o corpo para o nível máximo de alerta.

A inevitabilidade da vida

Nassim Taleb, um estatístico líbano-americano, ex-trader de derivativos e escritor, fez sua fama atacando a economia e as finanças, mas alcançou caminhos além de Wall Street com o seu livro “A Lógica do Cisne Negro”, cuja ideia principal é: a vida inevitavelmente trará surpresas de baixa probabilidade de ocorrer, mas de alto impacto (cisnes negros) e que nossos modelos preditivos da realidade não podem prevê-las. São exemplos de cisnes negros: a Internet, a AIDS, a peste negra, a crise de 2008, os atentados de 11 de setembro de 2001…

Em seu livro mais recente, “Antifrágil”, Taleb defende que quando uma pessoa é submetida a uma certa dose de estresse, ela sai da zona de conforto e, por descoberta, constrói um aprendizado. Assim, ao passar por um novo momento de estresse, não voltará ao estado anterior, porque evoluiu. Ele também afirma que se a pressão for excessiva, a pessoa poderá sucumbir. É preciso haver desconforto, desde que os limites da pessoa sejam observados.

Segundo o autor, as pessoas podem reagir basicamente de três formas diferentes diante da pressão: se fragilizar, resistir, evoluir. É claro que tudo depende de uma série de fatores, do organismo e da mente da pessoa.

Frágil

Pessoas frágeis não funcionam sob pressão. Por exemplo, qual a sua relação diante de uma lista de tarefas a fazer: desespero? Desestabilização? Surta com qualquer demanda que surja fora de sua rotina?

Se você conhece pessoas ou acredita que tem mindset frágil, provavelmente encontra problemas em alcançar objetivos, metas, conclusão de tarefas ou até mesmo empenhar-se em algo que não traga conforto. Pessoas frágeis buscam tranquilidade.

Contudo, elas podem se desestabilizar quando submetidas à pressão e passam a apresentar comportamentos bastante previsíveis. Quando extrovertidas, podem apresentar irritação, oscilações de humor, agressividade. Quando introvertidas, se fecham, têm bloqueios, se abatem e até se deprimem.

Resiliente

São pessoas que lidam bem com pressão e, ao contrário das frágeis, não se destemperam, mas acumulam danos físicos de longo prazo. Reagem, resistem e funcionam bem sob pressão. Costumam apresentar boas entregas e uma evolução com curva de aprendizado longa. Possuem característica mais voltada à manutenção do status quo e em menor grau para transformação. Pessoas resilientes percorrem naturalmente entre a fragilidade e a antifragilidade, mas sempre voltam para o seu mundo.

Antifrágil

Desenvolvem um mindset de crescimento ao longo do caminho, se submetem constantemente a aprendizados e a novas situações. Com isso, por ter experimentado diferentes cenários, riscos e situações adversas de forma recorrente, seu organismo passa a não entender mais estes cenários como perigo, por conseguinte, liberando menos hormônios de estresse.

Assim, estas pessoas são pouco afetadas quando submetidas à pressão, por terem uma mente mais aberta e mais experiências de risco. Pensam na solução e tomam decisões sem pânico, sem abalar-se com eventuais julgamentos ou aprovação de outras pessoas, se tornam menos suscetíveis a comportamentos agressivos, passam a entregar de forma mais eficiente. Pessoas antifrágeis crescem em meio ao caos.

O antifrágil absorve as interações com as pessoas, aprende – de fato – com os erros, seus e dos outros, corrige rumos e muda com agilidade, quando necessário.

Neymar sucumbirá a pressão?

Ao sair do Barcelona para jogar no PSG, Neymar deixou o campeonato espanhol, um dos mais difíceis do mundo, para jogar em uma liga desprestigiada, com times teoricamente mais fracos e com poucos desafios reais. A justificativa era de que, na França, alcançaria o título de melhor do mundo.

Neymar deveria abraçar o caos. O caos de Neymar e da seleção brasileira é o 7×1 para a Alemanha na Copa de 2014.

Para alcançar o topo, de forma inconteste, não seria mais nobre e desafiador confrontar-se entre “iguais”, em alto nível? Se tornar cada vez mais forte e mais experiente ao lutar entre gigantes? Ser reconhecido como o maior entre os maiores? Tornar-se o “G.O.A.T. – Great of All Time” (O maior de todos os tempos).

Decisões estratégicas e pessoais – acertadas ou equivocadas – à parte, hoje, 27/06/2018, às 15h de Brasília, teremos a oportunidade de observar mais uma atuação de Neymar e tentar compreender se é um atleta diferenciado, que apesar da pouca idade construiu força e equilíbrio interno, que não se perturba com os fatores externos, que consegue aprender com os erros, com seu choro, com sua vulnerabilidade e que muda rapidamente e se transforma no momento de maior pressão para alcançar seu objetivo.

“É nos momentos em que temos vontade de morrer ou de nos esconder que podemos fazer a diferença” – O Lado Difícil das Situações Difíceis (Ben Horowitz)

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Flavio é professor-executivo no MBA de Gestão de Negócios do IDCE, graduado em engenharia de telecomunicações pela UERJ com mestrado profissional em Administração pelo IBMEC, extensão acadêmica em Estatística Aplicada pelo IBMEC e em Relações Internacionais pela UFRJ, atua há mais de 15 anos em desenvolvimento de negócios e estratégia, gerenciamento de grandes contas e projetos em grandes empresas nacionais e globais, como Embratel, Brasil Telecom, Honav, Prudential, Senac e em uma startup de tecnologia para educação, Descomplica.

Autor: Flavio Costa
Fonte: https://www.linkedin.com
30: 27/07/2018

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